quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Memória dos Paladares no Encontro da Diversidade Cultural do ABC

Um dos cartazes do evento



O Memória dos Paladares esteve presente no Encontro da Diversidade Cultural do ABC, realizado no campus de São Bernardo. No dia 21 de novembro, acompanhamos de perto o GT 2, que tinha como título “Salvaguarda do direito a memória e identidade cultural”. Foram três falas: do Pai Nelson, acerca do candomblé; da Professora Doutora Ana Maria Dietrich, sobre o direito versus dever da memória; e do Leandro Valquer, que relatou sua experiência no grupo de jongo Preta Bandeira. A mediadora do GT era a própria Ana Maria Dietrich.

Participantes do GT e ouvintes

O relato do Pai Nelson foi marcado por uma frase em particular: “Candomblé é uma religião de paz”.  Iniciou sua vida espiritual ligado à Umbanda, e pode contar sobre a casa espiritual que antes era de responsabilidade de sua mãe. Aos 8 anos, incorporou um índio, Caboclo Peri, e desde então foi guiado nas suas tarefas espirituais. Em 74, se iniciou no Candomblé e hoje cultua, principalmente, o orixá Iemanjá (rainha do mar). Pai Nelson critica a falta de respeito e tolerância dos brasileiros à sua religião, e diz que “falta de religião é menos complicada que falta de respeito entre religiões”, e que “sonha com um futuro onde todas as religiões sentem juntas e troquem informações e experiências”. Sua luta constante não é pedir tolerância, mas sim respeito.

Pai Nelson

       A professora doutora Ana Maria Dietrich apresentou sua fala com o título “Direito à Memória x Dever da Memória”, e analisou as batalhas da memória e toda a dificuldade em estabelecer o que é patrimônio e o que não é. Até que ponto a negação à memória faz mal à História e sua compreensão? Com o exemplo do holocausto, questiona se esse “passar da borracha no passado” não prejudica o entendimento e até a prevenção de que uma situação semelhante não aconteça novamente. Para entender o que deve ser guardado e o que pode ser, de fato, apagado da memória é essencial entender o conceito de patrimônio. O patrimônio está ligado ao conjunto de práticas, valores, sensações do indivíduo, assim como o sentimento de “pertencimento” e o produto da trajetória humana. Nem tudo o que é belo é patrimônio, da mesma forma que nem todo patrimônio é belo, como por exemplo o Grande ABC como patrimônio industrial. Da mesma forma, patrimônio não é “o que sobrou da história”, como a própria Ana Dietrich diz.

Ana Maria Dietrich

       Leandro Valquer, representante do Grupo Preta Bandeira de Santo André, focou sua exposição de fatos na experiência do jongo. O Jongo é uma manifestação cultural que surgiu com os escravos, e servia para reivindicação, para organizações políticas, e também lazer. Em uma roda, os participantes começam a cantar e dançar, num formato pergunta-resposta, realizam brincadeiras entre eles, contam histórias e chamam outros a participarem também. Não existe separação entre público e artistas. Atualmente, o grupo tem ido difundir suas experiências e história nas escolas que os convidam, incentivando a criação de grêmios estudantis ou movimentos de conotação política. Também participam de trabalhos sociais e visitam coletivos, como a Casa da Lagartixa Preta em Santo André e outros espaços de formação de poder popular e descartam a hipótese de intervenção elitista.

Da esquerda para direita: Pai Nelson, Ana Maria Dietrich e Leandro Valquer.

O Encontro foi muito interessante, produtivo e os ouvintes participaram com observações construtivas, levando problemáticas e questões importantes. Como o nome do próprio GT já dizia “Salvaguarda do direito a memória e identidade cultural”, as falas apresentadas representavam minorias culturais e religiosas que, apesar de suas dificuldades, também tem direito à memória e identidade. Foi importante a exposição tanto teórica como prática. Para encerrar, Ana Dietrich diz: “Você deve visitar museus (ou ambientes como esse evento) quando, na verdade, a memória deveria estar dentro de você”.








Ana Lee é estudante do Bacharelado em Ciência & Tecnologia 
da Universidade Federal do ABC 
e bolsista do Projeto de Extensão Memória dos Paladares.